Chiclete ( Sergio Guizé ) e Virgínia ( Paolla Oliveira ) (Foto: Globo/João Miguel Júnior)

A teledramaturgia da Globo tem uma característica que subverte toda a lógica das novelas (e até do cinema de massa) mundiais: em vez de afirmar valores positivos – os daquela linhagem de heróis populares (muitas vezes simples e anônimos) que ajudou a tirar os EUA da depressão econômica no século 20 –, investe pesado na empatia de vilões e canalhas que apontam como única saída o individualismo e a razão cínica.

Nada mais contemporâneo e afinado com a política a que também assistimos: quanto pior, melhor. E já faz algum tempo. Por isso a tendência do streaming lacra o caixão e avança célere: se é para ver maldade, porrada e sacanagem, para que TV aberta?

(Foto: Dilson Silva/AgNews)

Nesse ponto, o pífio personagem Chiclete, de “A Dona do Pedaço”, vai chancelar um novo patamar nessa escalada de roteiro que faz apologia de gente má: o mocinho da história é um pistoleiro, um matador de aluguel, um assassino. Só faltou ser também miliciano, que era capaz de Walcyr Carrasco vir pagar de antena da raça e espelho de seu tempo.

Chiclete não será punido, nem responderá por seus crimes terríveis, cometidos às dezenas. Deve encerrar a vida sangrenta em algum lugar paradisíaco, ao lado da amada Vivi, a digital influencer que ficou o último terço da novela vagando feito fantasma pelas locações, sem nenhuma função dramática além de ser gostosa, e muito. Que pobreza.

De boa, gente, se entretenimento entre nós é isso, então merecemos o Brasil chegar aonde chegou. Esse cinismo só nos faz mal, é doentio até como ficção. Fora que essa fórmula envelheceu mais gravemente que a do saudoso bem vencendo o mal. No fim desse vale tudo, todos perdem, ninguém ganha nada com isso. ( R7)

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